Roger Machado não foi mais um na história do Bahia

Se engana quem pensa que Roger Machado foi mais na história do Bahia. Após a derrota para o Flamengo por 5 a 3, na noite da última quarta-feira (2), o ciclo dele no Tricolor chegou ao fim. Durante esse um ano e cinco meses (embora de março a julho o futebol foi paralisado em virtude do coronavírus), o ex lateral esquerdo entrou para história do clube, ao se tornar o treinador mais longevo no comando técnico da equipe baiana nos últimos 13 anos.

Desde 2007 passaram pelo Bahia, Paulo Comelli, Arturzinho (quem passou mais tempo – um ano), Roberto Cavalo, Ferdinando Teixeira, Alexandre Gallo, Paulo Comelli, Sérgio Guedes, Paulo Bonamigo, Renato Gaúcho, Márcio Araújo, Rogério Lourenço, Vágner Benazzi, René Simões, Joel Santana, Paulo Roberto Falcão, Caio Junior, Jorginho Cantiflas, Cristóvão Borges, Marquinhos Santos, Gilson Kleina, Charles Fabian, Sérgio Soares, Doriva, Guto Ferreira, Jorginho, Preto Casagrande, Paulo Cesar Carpegiani, Enderson Moreira.

De acordo com o presidente Guilherme Bellintani, a relação entre Bahia e Roger Machado foi importante para o desenvolvimento de ambos, mas neste momento, a saída do treinador era a melhor decisão para o futuro do clube:

“A gente é muito grato a ele desde o primeiro momento. O que a gente pode analisar é que ele fez o clube se engrandecer. E ele também se engrandeceu como treinador. Uma troca muito positiva, mas, infelizmente, a gente entende que chegou a hora da mudança, de fechar um ciclo. Essas escolhas, muitas vezes, são escolhas difíceis, mas que precisam acontecer na hora específica. A gente precisa entender que tem determinados remédios para determinados problemas. E a gente entende que, neste momento, o desligamento do professor Roger Machado é a melhor decisão para o futuro do Bahia.”

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A decisão pegou muita gente de surpresa. Com a queda de rendimento da equipe desde a metade final do Campeonato Brasileiro de 2019, a eliminação na primeira fase da Copa do Brasil em 2020 e a forma como perdeu o título do Nordestão diante do Ceará também este ano, a pressão e os questionamentos a respeito do trabalho do treinador passaram a ser constantes.

No entanto, a diretoria sempre bancou a permanência de Roger. Inclusive, na última segunda-feira (31), dois dias antes da demissão, o presidente Guilherme Bellintani negou a possibilidade de troca no comando técnico da equipe. Segundo, o mandatário, após o título do Baianão, foi feita uma avaliação, que baseou a decisão pela manutenção.

Com a saída de Roger, a diretoria trabalha para encontrar um novo nome para comandar a equipe na sequência do Brasileirão e da Sul-Americana- competições que o Tricolor ainda disputa em 2020. Enquanto não encontra um substituto, o auxiliar técnico Cláudio Prates assume o time interinamente

Parceria colocou Bahia e Roger Machado em evidencia no cenário nacional

Roger Machado
Divulgação/ Felipe Oliveira- EC Bahia

Em hipótese alguma se pode dizer que a parceria entre Roger Machado e Bahia foi um fracasso. Se formos avaliar apenas dentro de campo, e tomando como base as últimas exibições e as recentes e vergonhosas derrotas, a avaliação não será nada positiva. Mas, seria injusto nos apoiarmos nisso, assim como se levássemos em conta apenas as vitórias.

É lógico que pelas circunstancias, pelo momento de ambos neste período e principalmente pela estrutura e investimento, os resultados poderiam e deveriam ser melhores dentro de campo. Porém, é inegável que durante a sua passagem pelo Tricolor, Roger alcançou um status profissional e pessoal que nem na época de Gremio ele havia alcançado. E em contrapartida, ele contribuiu e muito para que o Bahia voltasse a ser referência no cenário nacional, dentro e principalmente fora das quatro linhas.

Após o anúncio nas redes sociais do desligamento do técnico, o presidente Guilherme Bellintani reconheceu a importância da passagem de Roger pelo Bahia:

“Primeira informação, de forma mais objetiva, para a gente começar a conversa, é o desligamento do treinador Roger Machado. Conversamos com Roger, já decidimos pelo desligamento. Um treinador que veio desde abril do ano passado, desenvolvendo um trabalho muito importante para o clube. Um treinador que escolheu jogar no Bahia e foi tido por muitos, à época que ele veio, como alguém que… A gente ouviu muito essa expressão nacional, da imprensa nacional, ‘alguém que tinha dado um passo atrás na carreira’, quando escolheu o Bahia. E, quando ele chegou aqui, viu que tinha feito uma boa escolha.’

Hoje o Bahia é modelo de gestão e com isso muito jogadores optam por atuar na equipe baiana. Assim como aconteceu recentemente com o meia Rodriguinho, que mesmo tendo mercado em outros grandes clubes, preferiu atuar no Tricolor de Aço. E sim, mérito total da direção, mas a imagem de Roger, que vai muito além das quatro linhas contribuiu muito para que o clube se tornasse a primeira opção para muitos atletas. Ou seja, instituição e técnico evoluiriam juntos.

Roger Machado além das quatro linhas

Roger Machado e Marcão
Reprodução/Thiago Ribeiro-AGIF

Por um momento, vamos esquecer o Roger Machado técnico de futebol. Vamos falar um pouco sobre o ser humano que, em especial, desde que assumiu o Bahia, vem aproveitando a posição que tem no esporte para debater temas que precisam ser combatidos. O principal deles é o racismo:

“O futebol embranquece o negro. Até os 19 anos eu era negro; quando comecei a jogar bola, eu comecei a clarear um pouquinho. Primeiro que, por uma ascensão social, pela visibilidade e por uma questão financeira, eu comecei a frequentar outros lugares que a maioria de nós não consegue frequentar. Segundo porque, em torno dessa habilidade artística com a bola nos pés, você é aceito. Esse seria o lugar de direito do negro, por suas habilidades artísticas — como costumam dizer —, como futebol, capoeira, ser cantor, no samba.”

Roger e Bahia: o par perfeito

Bahia e Roger contra o racismo
Foto: Reprodução

 

Nos tempos de hoje podemos afirmar, sem medo de errar, que Roger Machado e Bahia “deram match”. Eles combinam. E não estamos falando dentro das quatro linhas.

Se por um lado o técnico chamou a atenção do Brasil para o racismo com debates e discursos imponentes, do outro, o clube vem tratando as questões sociais como nenhum outro no Brasil, e talvez até no mundo. Combate a homofobia, feminicídio, e do próprio racismo fazem parte das campanhas promovidas pelo Tricolor. Um verdadeiro exemplo a ser seguido. Pena que nem todo mundo pensa assim.

Para Roger, o processo de mudança precisa ser construído por todos, e os mesmos são responsáveis por essa evolução:

“Faltam clubes, faltam pessoas físicas, faltam entidades privadas. É preciso aceitar que esse processo de mudança vai ser construído com todos. Não é apontar quem foi o culpado. É saber que nós todos, de uma certa forma, somos responsáveis por esse processo. E só há mudança quando a gente entender que há um problema a ser resolvido. O feminicídio, a homofobia, todos esses movimentos, a gente só vai conseguir resolver, de fato, quando a gente entender que precisa de políticas adequadas para se olhar com um olhar amoroso para esse lado, um olhar com sensibilidade, com empatia. Eu digo que o maior exemplo de educação que eu gostaria de dar para as minhas filhas é a sensação de empatia. Por mais que o problema não me atinja diretamente, eu me sinto responsável por olhar para aqueles que precisam de uma atenção diferenciada.”

Ainda de acordo com o Treinador, o Bahia e a Bahia o encorajaram a trazer essas discussões a tona:

“Eu digo que estar na Bahia, morando em Salvador e como treinador do Bahia, um time que aborda e acolhe muito essas questões sociais, de uma certa forma, me empoderou…”

Números de Roger Machado à frente do Bahia

Roger campeão pelo Bahia
Foto: Reprodução

Contratado em abril de 2019, Roger comandou o Bahia em 74 partidas, com 30 vitórias, 22 empates e 22 derrotas. O aproveitamento foi de 50%.

E os números mostram a queda de rendimento da equipe com o passar do tempo, colecionando “fracassos”, apesar do bom trabalho, em uma avaliação geral.

Veja um resumo da passagem de Roger pelo Bahia:

  • Melhor colocação da história do clube na Copa do Brasil, seguida de uma eliminação na primeira fase.
  • Melhor colocação da equipe na história da Copa Sul-Americana, seguida de uma eliminação na primeira fase.
  • Dois vice-campeonatos da Copa do Nordeste.
  • Tricampeão baiano.

Comunicado divulgado pelo Bahia

“O Esporte Clube Bahia comunica que Roger Machado não é mais o treinador do Esquadrão.

No Tricolor desde abril do ano passado, o profissional conquistou os títulos estaduais de 2019 e 2020.

Desde então, foram 74 jogos, com 30 triunfos, 22 empates e 22 derrotas – aproveitamento de 50%.

A diretoria agradece os serviços prestados e deseja boa sorte no seguimento de sua carreira.

O auxiliar Cláudio Prates assume até a chegada do novo técnico”.

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